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A HISTÓRIA DA INDEPENDENÇA
DA GUINÉ-BISSAU


(tomado da "Etnologia dos Bijagós da Ilha de Bubaque" (1978),
escrito pelo pesquisador da antropologia, Luigi Scantamburlo)

 
 


A pequena república da Guiné-Bissau é localizada na costa ocidental da África, limitada a norte pelo Senegal, a sul e este pela Guiné-Conakri e a oeste pelo oceano Atlântico. Cobre uma área de 36 125 kmq e tem uma população de 1 300 000 habitantes (35 habitantes por kmq).

Independente desde Setembro de 1973, depois de doze anos de guerra foi dividida em oito regiões, para além do sector autónomo de Bissau, a capital: Biombo, Cacheu, Oio, Bafatá, Gabú, Tombali, Quínara e, A Região de Balama-Bijagós, com Bolama por capital.

Estas divisões foram feitas de acordo com as diferenças do meio e as tradições dos habitantes. Com excepção das poucas grandes cidades existentes (Bissau, 80 000 habitantes; Bafatá tem 10 000 e as outras menos de 5 000), a unidade de base no país é ainda a tabanca (aldeia), governada pelas autoridades tradicionais, que actuam sob a orientação de representantes políticos aprovados pelo Governo.

A economia, após doze anos de luta, estava ainda muito débil. Aquando da independência, não havia muito mais do que uma fabrica de cerveja, uma outra apetrechada para a extracção do óleo de palma e algumas serrações. Não havia nenhum porto merecedor deste nome, as estradas eram poucas, as escolas primárias insuficientes e havia uma única escola de ensino secundário, com 400 estudantes, 60 % dos quais eram portugueses.

Os líderes do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) começaram o melhor que puderam a ir ao encontro das necessidades do povo e não à procura de grandeza e poder. Como consequência foram empreendidos programas, através dos quais, em 1980, a quantidade de arroz produzido seria suficiente para satisfazer as necessidades da população. Até agora o resultado tem sido satisfatório. O arroz produzido dentro do país reduziu para metade a necessidade de importações, que se $84 000 em 1974 passou para $42 000 em. 1975. Desencorajada a urbanização, a população é ajudada a regressar às suas tabancas de origem.

Outra grande acção do Governo têm sido as facilidades concedidas a nível educacional, pois enquanto no tempo colonial o total de alunos matriculados em todo o país, e em todas as classes, era de 12 000, vamos encontrar em 1976-1977 cerca de 85 000 estudantes. Actualmente 10 % da população aperta-se nas escolas existentes, que despendem 23 % do orçamento do país. Embora a taxa de analfabetismo continue elevada (90 %), foi dado o primeiro passo e pela primeira vez na história da Guiné-Bissau todos os rapazes e raparigas têm a oportunidade de usufruir de pelo menos quatros anos de escolarização.


Uma nação com um mosaico de trinta grupos étnicos

Na Guiné-Bissau há pelo menos trinta grupos étnicos, coabitando e possuindo cada um a sua própria língua e tradições.

Os cinco grupos mais numerosos são os Balantas; os Fulas; os Manjacos; os Mandingas e os Papéis. Osdois primeiros grupos contam com mais de 100 000 elementos, enquanto os outros três têm entre 50 000 a 100 000.

Outros grupos importantes são os Mancanhas; os Felupes; os Bijagós; os Baiotes; os Beafadas; os Nalús; os Cassangas, e os Banhuns.

Apesar da grande diversidade de línguas e tradições, todos eles parecem viver em boa harmonia. Na sequência da criação de uma nova república assente no princípio da igualdade entre todos os cidadãos e no direito de todos a viver de acordo com a sua própria cultura, assiste-se ao aparecimento gradual de uma consciência nacional em que cada grupo étnico começa a sentir-se ele próprio como parte de um grupo maior, a nação. Este facto foi favorecido por doze anos de luta contra o colonialismo, que pôs em contacto pessoas de todos os diferentes grupos étnicos.

Segundo Amílcar Cabral, o fundador do PAIGC, morto em Conakri em 20 de Janeiro de 1973, a luta armada foi uma via poderosa, ainda que bastante dura, para o desenvolvimento duma cultura padrão mais acentuada quer para os líderes quer para o povo. Os chefes originários, na sua maioria da burguesia citadina, foram ajudados através da luta armada a compreender os valores do povo que vivia nas zonas rurais, conhecer as suas necessidades reais e esperanças e apreciarem ao mesmo tempo as suas capacidades dedutiva e dialéctica, a maior parte das vezes desprezadas pelos poderes coloniais.

Por outro lado, a luta armada ajudou os camponeses a superarem o seu sentimento de inferioridade perante os mais instruídos da cidade, a romperem as fronteiras limitadas da tabanca através de contactos diários com diferentes grupos étnicos e a adoptarem melhores tecnologias no seu trabalho. Mais importante ainda para a sua sobrevivência cultural foi o facto de terem sido admitidos como elementos válidos no novo processo nacional, sem precisarem de abandonar a sua tradicional visão do mundo e dos seus valores, contrariamente à orientação imposta pela política portuguesa. Por conseguinte, a luta armada resultou não só num novo facto cultural mas também forneceu os meios para uma nova cultura popular.

O despertar da consciência nacional foi grandemente facilitado pela linguagem comum falada pela maioria do povo, o crioulo da Guiné-Bissau. Proibido e desprezado durante o período colonial, como um português mal falado, ascendeu ao estatuto de língua nacional na altura da independência. É já compreendido por quase todos.

O grande mérito do melhoramento desta situação de progresso deve-se atribuir a Amílcar Cabral, um dos maiores líderes da história africana contemporânea, e os seus escritos forneceram os princípios básicos aos autores dos estatutos da nova república. No dia-a-dia, durante a longa luta pela independência, ele ajudou a estabelecer os princípios de liberdade e igualdade em que se baseia a nova nação. Cabral acreditava que a liberdade e a igualdade poderiam ser dadas a todos e não se deveriam basear na raça, cor, riqueza ou nível educacional alcançado e também sentia que não só os oprimidos mas também os próprios opressores necessitavam de libertação. O PAIGC nunca combateu o povo português mas sim os líderes de Portugal, que desde há multo recusavam a liberdade aos cidadãos no seu próprio país. Quando a Guiné-Bissau alcançou a independência e o exército de 25 000 portugueses se retirou, em Setembro de 1974, não houve um só incidente.

Hoje, não só ao nível do Governo, mas por todo o país, os ideais de liberdade e respeito mútuo são discutidos e encorajados. Apesar das grandes dificuldades económicas, a nova república conseguiu fornecer ao povo alimentação suficiente para o dia-a-dia e assim parece que uma das esperanças de Amílcar Cabral tenha sido realizada.

São palavras suas, num dos seus famosos discursos durante a luta armada: "Nós pretendemos construir uma nação onde cada um, não importa de onde venha, possa viver, trabalhar e pensar livremente. A condição necessária é que respeite os direitos dos outros."

Penso que isto é muito importante para a República da Guiné-Bissau, onde os diferentes grupos étnicos são desafiados todos os dias por tecnologias mais avançadas, instrução e relações sociais mais amplas introduzidas após a independência. A paz, a igualdade e uma certa liberdade de escolha oferecem um ambiente favorável onde interagem e se modificam os modos tradicionais de vida e a perspectiva do mundo *.

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* - O presente material etnográfico foi recolhido enquanto vivi entre o povo bijagó de Maio de 1976 a Novembro de 1977. Evitei cuidadosamente descrever alguns pormenores da cultura dos Bijagós, que os anciãos desejam manter secretos, o que entendo como uma boa táctica, pois entre a população da Guiné-Bissau o segredo dá significado e complementa muitos elementos da cultura.

 
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